terça-feira, 28 de julho de 2009

O lobo desgarrado

O sabor do sangue entre os dentes
A matilha regozija o banquete
E ao largo, o outro só observa
Desgarrou-se muito cedo
E foi embora antes de ter ido

O leite farto da loba sua mãe
Não era o bastante para sua fome
Os outros lobos não enxergavam
A impaciência recalcada na matilha

Entre as cores pedregosas da savana
O desagarrado permanece e observa
Conhece claramente cada lobo
E lembra os nomes que não têm

Ele perscruta a turba festejante
Desconfortado pela dor da solidão
Mas antes de sofrer por ser tão só
Foi por sofrer que teve de aceder
À solidão que seu destino convocava

O desgarrado se nutre da tristeza
Em ver que seu sofrer é tão mais certo
Que as certezas confortáveis da matilha
Não precisa de leis nem Deus
O vermelho da carne de sua presa
É a única verdade que o conduz

Errante, compreende que os outros
Acreditam cegamente que são lobos
E ele que, lobo, lobo nunca foi
Sabe que é quem é, e nada mais

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Perfeitos

Começo a querer projetar meus poemas na forma de uma obra...
E este poema vai estar presenta, certamente.





PERFEITOS




Não sei – não sei de nada!
O mundo é tão grande
Que me parece faltar espaço
Para algo mais que não seja mundo:
Noites nubladas que escondem estrelas
Noites de estrelas que escondem galáxias
Todas elas transvazam-me saudades
Saudade de quê? – nem mesmo sei
Tomado de dúvidas e mistério
Sinto o gosto de continuar que não sentiria
Se tudo já nascesse esclarecido

Quem serei depois de ti?
Um ser de saudade?
Quem era eu antes de ti?
Um ser de saudade – pois o fui sempre
No vigor de tudo o que sinto
Foi-me adicionada a tua saudade
Sou o mesmo que sempre fui
Com o corretivo dessa diferença

Minha alma acercou-se de toda certeza
Que as muitas vozes iludiram-me
Acreditei no que se havia de acreditar
O semblante do mundo: sua face mais fácil
Porém esse amor não completou minha ilusão
Deu-me da ilusão apenas o preenchimento
A saciedade da vaguidão corrigida

Mas o tempo veio curar a revelação
De que só é possível ser humano por amar
Entre outras milhões de grandezas
Que nos faz homens a amante natureza

Então, numa manhã de dezembro descobri
Quando o dia se deitava nos ombros das folhas
Que há um pouco de amor em tudo
E que é exatamente isso o que nos une

São meus guias estes sentidos
O que vejo de ruas e prédios e pessoas, muitas
O que ouço de vozes, buzinas, freios e risadas
Sinto a roupa colada no meu corpo, o vento em meu rosto
Abro a boca e uma folha cai em minha língua
Sinto o cheiro de borracha, da fumaça pelo ar
E com a segurança súbita adquirida pelos sentidos
Amo meu próprio corpo com uma alegria satisfeita

Logo virá a noite, onírica
Ao lado da qual sucumbirá o mundo
Revestido da total falta de sentidos
Que o façam realizável

Deixa-me contar-lhe dos meus medos:
Parece tudo tão muito seguro
Que dormir e deixar diluir todo esse tempo
Torna-se um pequeno terror, ignoramos
Não há intervalos na minha vida
O mundo a que sirvo - e que me serve
Acompanha-me em todas as minhas formas
Se um cataclisma cósmico devorasse
A ordem das galáxias que eu amo
Que levasse consigo minha vida
(Viver é um capricho da imperfeição)
-Mas não leve embora, nunca
Essa saudade de tudo que ainda não vi

A eternidade é demasiadamente breve
Para que eu possa esquecer que o que há
Aqui, ainda, não é noite, mas borboletas

Que me dizes de tua vida, pequena flor?
Seja reta e não me agradeça a pergunta
Não estou aqui por ti, somente por mim
E se te louvo é por sua beleza agradar a meus olhos
Obrigado por existir e ser minha!

(Se eu puder me surpreender,
surpreendo-me agora
Porque não ouvir a resposta da flor
Não significa não saber que ela me agradece
Por existir e fazê-la bonita
E às vezes é tão simples e tão bom
Viver só para que minha vida
Aconteça na beleza da flor)

Que me dizes do mundo, borboleta?
Tem alguma resposta para mim?
(Oh!, mas não se apresse em responder!
Não busco exatidão, pequena
Quero apenas saber como te passa a vida
Para que eu possa participar do seu mundo
E assim minha vida será mais completa)

Que me dizes do mundo, criatura?
Verdades e mistérios que se confundem - sim!
A ti não posso ter completamente
Porém nesse incompleto que te possuo
Retenho entre mim e tu o maravilhoso espaço
Em que se doa o amor verdadeiramente
Realizando nessa distância infinita
Minha eterna aproximação de ti

Uma flor e uma borboleta, - E eu e tu!
Estágios diferentes do mundo
Compartilhando a unidade da experiência
Houvesse cachorros, elefantes!
Vermes, minhocas, protozoários, peixes!
Há ainda alguns pássaros, no céu
Mas passam indiferentes
Não enxergam o milagre que acontece agora:
Vivem-no

Abrigadas pela sombra amena
De uma árvore frondosa, mas sem frutos
Algumas formigas passam pelo asfalto
E nós poucos, nesse contato
Desvendamos em silêncio – e em segredo
Todo o mistério do universo
Como uma canção que foge da boca de quem canta
E vai parar no ouvido de um transeunte incauto

Tenho esse mundo tão grande
Que ainda assim cabe na minha mão
Sobre a qual ponho-me de joelhos
Porque viver é realizar uma contínua comunhão
Contigo e com onde não estás
Sou um com o mundo e comigo
E trago segura a resposta
De qualquer mistério que haja

A saudade persevera
De tudo que ainda não nascera
Um medo profundo do que meus olhos
Enxergam no futuro que eu sou
Do passado trago somente as lições
Não penso no futuro, apenas o aguardo
Com a certeza de que virá naturalmente
Conseqüente aos fazeres do meu presente

Sou um ser de saudade – o fui sempre
Mas na adição da saudade que te tenho
Então todas as outras se desfazem
E renascem com uma potência encorajada
Que não tinham antes de minha saudade de ti
Mas que por serem desde sempre saudades minhas
Eram, inevitavelmente, desde então, saudades de ti

(Eu não acredito no tempo ou na mudança
Pois tudo é desde a origem o que será no fim
Mesmo que não haja destino nem fortuna
A irregularidade do mundo é só vir a ser
Ninguém se torna outro ou realmente muda
Apenas recebe o amadurecimento
Da experiência que antes não teve)

Na noite triste de Janeiro deparei com a flor
E lhe dei a imagem da minha criatividade
Contudo antes que o oráculo tivesse revelado
A carta do destino, ela veio falar comigo
Não estava ali a amiga longínqua de outrora
Mas o silêncio sábio do que nunca fora flor
Aprendi a escutá-la com respeito
E não à minha própria voz
Que sem saber floria engasgada do esforço

Não tenho mais sonhos de amor:
Vivo uma vida em amor
Ao dormir deixo que o mundo permaneça
Por não me preocupar com que ele se desfaça
Tudo voltou a seu legítimo lugar:
Que a flor e a borboleta copulassem
Onde não chega nenhum pensamento;
A voz divina das galáxias se calou
Para que eu ouvisse no seu silêncio minha própria voz
Que é, essa sim, a voz verdadeira das galáxias

A confusão do mundo me havia posto um véu
Das cores mais bonitas sobre os olhos
Mas eu tanto quis aprender sua língua
Que não vi serem minha língua e a sua
Desde sempre a mesma

O mundo não se tornou menos difícil
Apenas sua dificuldade se modificou
Para que eu a pudesse conhecer
E na perfeição de minha errância
Consciente da minha participação universal
Me concentro e vivo a toda hora uma oração
E realizando-a, observo em meu redor
Que na simplicidade do mundo se encontra
Aquilo que compõe minha verdadeira natureza

Já não sou quem sou em sonhos
E quando durmo não preciso mais sonhar

Posso traduzir tranqüilamente meu espaço
Imperfeita quanto seja a tradução, não importa
É perfeita enquanto serve ao instante
E se há algo que possa ser perfeito, é justamente
O saber aproveitar o imperfeito como é
Até o máximo que ele possa oferecer

Não posso responder o mistério do mundo
Mas compreendo que não preciso de resposta
E assim, entre orações e agradecimentos
Intuo nitidamente uma sombra e lhe agradeço
Por me aproximar tanto de mim mesmo...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sem título

Preso no inteiror do casebre morto
Ele observa uma triste lembrança
Fora da casa, extendendo-se além do frio
Existe um vasto e gelado prado
Além do prado, uma montanha
Que lá já estava quando Ele chegou
Assim como o lago gelado,
A miríade de rubras flores
- Outrora ostentoras de um fabuloso campo -
E a solidão congelada na memória

Na montanha há um túnel
Um mistério nunca resolvido
Vedado desde sempre
Escondido na rocha
Como se o atinge ninguém sabe
Assim como não se sabe
O que há além dele
No cume da montanha existe uma árvore
Que Ele não sabe qual é
Porque nunca provou seu fruto

O vento sopra
O fogo da parca lareira treme
O frio devora o prado
E Ele devora a lembrança
Como uma imagem estagnada
Está presa parte pregressa de sua vida
Mas seu lembrar não comporta,
Esquecidos no fundo das imagens,
A jovem que fugira de casa
-E que foi brutalmente assassinada -,
A árvore que sombreava um casal
-E que secou com o tempo rude -
O homem de sobretudo e barba
-Que fazia das ruas sua morada –
O próprio amarelecimento
Do momento eternizado pelo esquecer
E a canção do vento que sibila fora do casebre

Uma das flores do prado
Aquela que ainda não sucumbiu ao frio
Aquece com sua vida as flores ao redor
E essas flores, as outras
E dessa esplendorosa forma
Coibidas pelo lancear do frio
As flores almejam sobreviver
Mas Ele, no frio e sombrio tugúrio
Disso jamais saberá
Assim como jamais saberá
Que o casal de falcões que domina o ar
Ruma em direção ao sol
Mas nunca o alcança

Engaiolado entre cadáveres de árvores
Persevera uma solidão incomensurável
E a canção do vento que sibila fora do casebre
É uma das flores do prado
A outra está no corpo d´Ele
E quando Ele morrer
De seu pólen sanguíneo
Nascerá outra árvore
Cuja fruta não provada
O não permitirá saber de seu existir
Mas já o permite sentir
Enquanto, do lado de fora do casebre
O sabor das rubras flores foi esquecido
Antes mesmo de ser experimentado

O paladar da água do lago
Que recebe seus habitantes sequiosos
Foi uma vez provada pelo alce
Que foi abatido pelo caçador
Que o vendeu ao feirante,
Que vendeu metade da carne
E deu a outra ao cão
Que morreu sobre a terra
Onde brotou uma muda
Que foi comida pela galinha
Que foi devorada por Ele
Que ainda não conhece
O sabor da água do lago

A chuva se precipita da procela
E varre com gelo o fértil prado
Ao lume débil da chama da lenha
O gelo é tudo o que se vê
Além da carcaça que erigiu o casebre
E a imagem que guarda o momento

Alumiando a fortuna da árvore
Está o sol que não se mostra
Os nimbos que dominam o céu
O impedem ingenuamente de existir

Ecoa uma música
Intermitida no choro lamentoso
Do vento que não cansa de se debater
Não passa de uma ilusão
Que voou perdida até chegar a Ele
Que a deixa livre
Sem saber que esteve ali

O mundo inteiro tenta viver
Mas Ele, sem saber,
Vive sozinho o mundo inteiro

Os rastros da memória se sustentam
Assim como a garota ao fundo,
- Que Ele não sabe se um dia conheceu -
O senhor de chapéu
- Que sofria de alguma doença grave -
O carro que passava
- E que talvez nunca pertencera a ninguém -
Os anjinhos do chafariz
- Que nunca o banharam com a água que cuspiam -
As lembranças são sua vida
Sua plenitude e necessidade
Os prados que o esperam não são mais
Do que a ilusão verdadeira
De tudo que sua teimosia não quer
E não se pergunta o que é

Ele não sabe que nunca visitará
A árvore do cume da motanha
Nunca adentrará o túnel
Nem cheirará as flores
Porque não sabe que eles estão lá
Também não se banhará no lago
Porque jamais o viu
Mas sonha que existe um sol
Que alumie a árvore
Que viva na montanha do portal
Que se encontre num grande prado
Que seja colorido por flores
Que beirem um cristalino lago
Que seja agitado pelo vento
Que cante ao chegar na casa
Que abriga a Ele e seu sonho
De que existe um sol
Que, apesar disso,
É bloqueado do mundo pelos negros nimbos

Ele às vezes pensa em rumar para o sol
Mas logo desiste, pois
Se os próprios falcões que vivem nos prados
Nunca o puderam alcançar
Ele nada poderia fazer
Já que duvida de seu próprio sonho...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

E outras Histórias...

Eis um parágrafo do livro, bem ilustrativo do que pode ser encontrado em seu interior...

"Marlene, no entanto, guardou sim uma impressão, mas que nunca foi esclarecida o suficiente por sua simplória criatividade: somente a memória de uns homens tristes que falavam de coisas bonitas e complicadas e que, no entanto, a faziam se sentir melhor. Ficou perguntando se o que o viajante misterioso disse era verdade, que a caravana em breve terminaria, e nunca chegou a saber que a predição que ele havia feito fora mais certa do que seu próprio destino. Inspirados pela amizade e pelo amor, os membros da tribo foram se fixando nas cidades pelas quais passavam, aceitando a cordialidade de uma vida nova que agora dizia mais respeito ao desenho de seus desejos do que a antiga falsa idéia de uma busca inalcansável da verdade. Alguns vieram a se apaixonar pela filha de um local; outros viram o futuro brilhar como comerciantes ou assistentes de padaria. A outros apenas lhes agradava o aspecto da cidade; assim foi que, no dia em que Marlene teve seu primeiro filho, de um estrangeiro que se enamorou tão profundamente dela que lhe rendeu além de uma criança, muitas jóias e paparicos, os últimos membros da tribo decidiram declarar sua extinção: depuseram sobre o solo uma arca, com as últimas remanescências de sua sabedoria e sua filosofia, indo cada um para um lado do mundo, na sorte de se depararem com uma última surpresa. Dos quatro últimos, aquele que sobrou, depois que a turba se dispersara, sentou-se sobre uma pedra e passou o dia inteiro refletindo sobre os útltimos acontecimentos e todas as decepções que tinha sofrido. Então, não chegando a conclusão alguma a respeito da diáspora de seu tão querido grupo, aceitou cordialmente o peso de todo o seu ceticismo, afundou os pés na terra e, inspirado por um mito ainda por acontecer de uma dríade que se transformava em árvore, deixou suas raízes fincarem na terra e consumirem sua humanidade sem razão. Assim permaneceu por dias a fio, deitado o tronco reto da Kundalini apontando para o céu, com os cabelos voando ao som do vento do ermo, quando a seiva da terra começou a subir por seus membros, pouco a pouco, deitando um dedo, acalentando o tornozelo, devorando as canelas. Nessa época as crianças do povoado vizinho descobriram-no e encontraram um alvo perfeito para sua zombaria: jogavam terra em seu rosto, pedras em seu peito, e o homem só podia pedir que parassem, que ele não podia revidar. Quando, enfurecido, gritava e ordenava que lhe deixassem em paz, os moleques riam e zombavam ainda mais e lhe atiravam merda de cachorro na boca. Quando, porém, os adultos o descobriram, assim que um garoto tagarela falou ao pai da existência da estranha criatura, os homens, surpesos com a misericórda de um ser que não revidava os agravos recebidos, acreditando tratar-se de um avatar ou elfo, passaram a levar oferendas e a fazer sacrifícios em seu nome. Como os dias passavam tediosos para ele, aquela algazarra servia para tornar menos insípida a repetição das manhãs e das tardes, e aceitava, sem gosto, mas também sem repúdio, libações de cabras, ânforas de vinho, pêras, laranjas, mangas, carne seca, repolhos, farofas, e um festival de comidas que poderia alimentar a pobreza dos próprios que ofereciam-lhe as oferendas. Nisso chegou o dia em que, sentindo uma comichão insuportável em sua coluna, o sujeito concedeu em abrir os braços para o sol e deixar que as primeiras folhas começassem a brotar das pontas de seus dedos. Os dedos ramificaram galhos fortes e o corpo enrugou, amadeirando a constituição sob a qual alguns vermes e lagartas principiaram em fazer ninho. Chegou então, após o frio tenebroso que fez congelar as folhas, a primeivera na qual suas primeiras flores botaram, manejando as cores caleidoscópicas de um completo arco-íris. A mesma geração que antes gozara de insultar aquele miraculoso avatar era hoje constituída por adultos sérios e tementes a Deus, que mantiveram vivo o hábito de levar oferendas suntuosas ao misterioso ser e obrigavam aos filhos que reconhecessem a grandeza daquele espírito. Quando, porém, no outono seguinte caíram, maduras, as primeiras frutas, os aldeões tiveram receio de prova-la, e ofereceram ardilosamente a experiência a uma caravana de artistas que propiciamente visitava a região. Um dos membros da caravana tomou a fruta do galho mais baixo, incitado pelos curiosos aldeões que espiavam o acontecimento de longe; mas, dada a primeira mordida, cuspiu o troço no chão e largou um palavrão que escandalizou as crianças. Então deixou avisado que o fruto não prestava porque tinha gosto de sangue."

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Reminiscências

Carrego comigo a saudade
Das coisas que ainda não vi
Dos lugares que não visitei
E vejo, em tudo o que vejo
Um pouco que, nas formas diversas,
Não foi nascido neste mundo

Sinto, no âmago da vida
Na tez do mar, no som das pedras
Dentro da escuridão do tempo
Uma certeza, tanto incerta
De tudo aquilo que, não sabido
Existe, caladas as regras

E reconheço, no saber cósmico
Das nuvens e dos montes
Memórias de antes, de quando
Eu já era tudo que hoje não sei
E a alma me abre em flor, plena
Do que vou sendo (sem saber)

Então me escorre uma tristeza
Que enche a imensidão da noite
E enquanto me ri em estrelas
A resposta ilegível de minhas dúvidas
Vou sonhando as mesmas coisas
Que desconheço; tamanha saudade...!

O tempo passa e tão pequeno
É esse pedaço de eternidade...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Nus

Começamos pelas roupas
Amantes revestidos de desejos
Nus ficamos frente ao outro
Desnudados antes do beijo

Sem segredos, sem receios
Entregamo-nos ao nada
E relegamos sobre o chão
As roupas e as máscaras

O que fomos enquanto fomos
Ficou no mistério, escorrendo
O sangue, nus desde antes
De nos conhecermos

Dois amantes solitários
Cheios de tantos defeitos
Tantos medos e sujeiras
Ante a nudez, desfeitos

Esquecidos de nós mesmos
Esquecíamos ser alguém
Mas então tampouco fomos, senão
A intensidade de ser ninguém

Bastasse ao resto em nós
O mundo que nos era as partes,
Pois na arte da nossa nudez
Fomos livres, por um instante

Desnudados da nudez, contudo
Tornamos ao que antes era:
Constrangida nestas vestimentas
A felicidade infeliz das eras...

domingo, 21 de outubro de 2007

Eternidade?

Se eu fosse viver para sempre
Tudo o que fiz, sequer começaria
Que na benevolência do que não finda
Folgaria que o tempo para desejar e querer
Não me limitaria. Se seria feliz, não sei
Que talvez só haja felicidade em querer
E conseguir o que a vida eterna, de tão longa
Na eternidade torne-o esquecido

E que pressa eu teria em descobrir
Os benefícios para a vida? Ser alguém?
O ilimite traria, com o tempo
Tudo o que, tendo de ser, seria
E conhecimentos, poemas e prazeres
Culminariam não em obras, mas
Em minha maturidade envelhecida

Mas não folgo desta dita, pois que
Sem a ver, o abraso da noite se apronta.
Ao que o tempo me aprimoraria não chego
E nesse desespero, entre imortal e findo
Me obrigo a escrever, criar, fazer
Pra deixar nisso que fica, o que sonhei
Aprendendo minha vida no que deixo
Pra que à outra vida doe-me inteiro

Entre mortal e eterno penso e sou
Uma parte minha que, ficando, propague
Além de mim, minha eternidade
Porque no susto do além que além não vejo
É no eterno deste instante que me abro
Em que, deixando-me a alma pelos dedos
Minha vida se faça a minha obra-prima